NEPAL: NOVA REGRA PARA O EVEREST LEVA À PROPOSTA DE REGISTRO GLOBAL DE CUMES

Crédito: https://altamontanha.com/por-um-sistema-de-certificacao-de-cumes/

Em 28 de fevereiro de 2026, o Governo do Nepal anunciou, em texto de Pedro Hauck publicado no Portal AltaMontanha, uma proposta que exigia comprovação de uma ascensão prévia de 7.000 metros para obter permissão ao Monte Everest. A proposta determinava que essa subida de 7.000 metros fosse obrigatoriamente realizada em território nepalês e gerou controvérsia e críticas na comunidade do montanhismo.

Crédito: https://altamontanha.com/por-um-sistema-de-certificacao-de-cumes/

O Nepal justificou a nova regra como uma tentativa de reforçar a segurança nas montanhas e aperfeiçoar o monitoramento das subidas. Segundo o Ministério do Turismo do Nepal, a exigência visava aumentar a segurança dos montanhistas e melhorar o controle sobre ascensões em seu território.

Na prática, a regra valia apenas para ascensões realizadas em território nepalês, o que deixava fora do alcance legal do país expedições em locais como China, Paquistão e países da América do Sul. Críticos apontaram que, apesar da justificativa de segurança, o regulamento acabou obrigando postulantes a realizar viagens adicionais e a consumir serviços no Nepal — incluindo guias, logística e permits — para cumprir os novos requisitos.

Esse contraste entre a justificativa oficial e os efeitos práticos motivou as críticas, pois para muitos a medida significou custos e deslocamentos extras sem competência direta do Nepal sobre escaladas fora de seu território. A discussão colocou em evidência a tensão entre o controle nacional das rotas de montanhismo e a jurisdição internacional sobre picos localizados em outros países.

Proposta central de Pedro Hauck

Pedro Hauck proporá que a União Internacional das Associações de Montanhismo (UIAA) crie e gerencie um Registro Global de Cumes Certificados. A iniciativa terá como objetivo estabelecer padrões éticos e técnicos que transcenderão fronteiras e interesses econômicos locais.

A proposta surgirá em resposta à medida anunciada pelo Nepal. Com isso, a UIAA será apontada como a entidade gestora e referência internacional para a certificação e validação de cumes.

Modelo de implementação sugerido (Rede de Certificação Federativa)

O modelo proposto organizará uma rede federativa dedicada a operacionalizar o registro global de ascensões. Cada federação nacional de montanhismo designará ou formará um Corpo Técnico de Certificação responsável pela gestão e avaliação inicial das submissões.

A validação primária será feita pelas federações nacionais mediante análise de documentação, incluindo GPS, fotos e relatórios de ascensão. Esse Corpo Técnico de Certificação avaliará a conformidade técnica e a autenticidade dos elementos apresentados antes de emitir a validação nacional.

Após a validação nacional, a ascensão será submetida à UIAA para acreditação final e inclusão no registro. A UIAA atuará como órgão de auditoria, realizará a revisão final das evidências e permanecerá como guardiã dos dados, assegurando a integridade e a padronização do registro global.

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Sustentabilidade financeira e produtos de certificação

O modelo financeiro será direto e transparente: será cobrada uma pequena taxa administrativa no momento da submissão da ascensão para avaliação pela federação nacional. Esse pagamento estará atrelado ao serviço de validação e não ao direito de escalar, deixando claro o caráter operacional da cobrança.

A receita será dividida para cobrir os custos operacionais da federação — incluindo a remuneração dos avaliadores — e para repassar uma parcela à UIAA destinada à infraestrutura e auditoria. Essa divisão garantirá que tanto a execução das avaliações quanto os mecanismos de verificação externa sejam financiados.

Após a acreditação, o montanhista poderá optar por um certificado digital (formato eletrônico, seguro e verificável) ou por um certificado impresso de alta qualidade. O pagamento será vinculado ao serviço de validação fornecido, e não a qualquer autorização de subida, mantendo o foco no reconhecimento formal da ascensão.

Benefícios esperados do Registro Global

A implantação do Registro Global prometerá transformar a comprovação de ascensões: haverá padronização e integridade global nos registros, com critérios uniformes que tornarão cada subida verificável em diferentes jurisdições. Isso garantirá maior confiança documental na validação de trajetórias e resultados no montanhismo.

O sistema servirá como um filtro de segurança e de avaliação de competência, passível de uso por governos, agências de guias e operadores de expedições. Essas entidades poderão consultar registros consolidados para verificar habilitações e histórico operacional. Além disso, o Registro Global facilitará a qualificação profissional de guias e candidatos a programas de treinamento ao centralizar histórico de experiências verificadas.

Também haverá a preservação histórica centralizada e confiável das estatísticas de montanhismo, criando um repositório único para consultas e estudos. O sistema atuará no combate à falsificação de currículos e dará suporte à due diligence de patrocinadores e clientes, simplificando a verificação de credenciais. Em conjunto, essas funções elevarão a transparência e a confiabilidade nas informações sobre profissionais e expedições.

Crédito: https://altamontanha.com/por-um-sistema-de-certificacao-de-cumes/

Precedente comparativo (exemplo PADI)

O modelo de certificação da PADI é um exemplo consolidado de certificação global no mergulho. A PADI possui níveis de certificação aceitos mundialmente: Open Water, Advanced Open Water e Rescue Diver.

O modelo da PADI eleva padrões de segurança e legitimidade profissional no mergulho. Essa experiência comprova a viabilidade de um sistema de certificação estruturado para outros esportes, ao demonstrar como níveis claros e aceitação global consolidam práticas seguras e profissionais.

Autor e suas credenciais

Com autoridade consolidada no montanhismo, Pedro Hauck é natural de Itatiba-SP e reside em Curitiba-PR. Possui graduação em Geografia pela Unesp Rio Claro e mestrado em Geografia Física pela UFPR.

Atua como guia de montanha profissional e instrutor de escalada credenciado pela ABGM, com mais de 27 anos de carreira. Registra mais de 180 montanhas acima de 4.000 m, sendo mais da metade acima de 6.000 m, incluindo um 8.000 m e dois 7.000 m.

É sócio da Loja AltaMontanha, Via AltaMontanha e Soul Outdoor. O texto é publicado no Portal AltaMontanha em 28 de fevereiro de 2026.

A UIAA deverá criar o Registro Global de Cumes Certificados, que será posicionado como alternativa às regras localizadas anunciadas pelo Nepal. Essa proposição será a chamada à ação final do texto.

A proposta preverá a delegação da validação inicial às federações nacionais, e a acreditação final caberá à UIAA. Serão definidos em seguida os próximos desdobramentos propostos, contemplando a participação das federações no estabelecimento dos critérios e do calendário de implementação.

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